Da Redação
Fonte: O Globo
Multi-instrumentista alagoano arapiraquense, faleceu no Rio de Janeiro; sua obra transformou a música instrumental brasileira e mundial
Publicado em 13/09/2025 — Atualizado há 1h
O Brasil perde um de seus maiores gênios musicais

O multi-instrumentista, compositor e improvisador Hermeto Pascoal faleceu neste sábado, 13 de setembro, aos 89 anos, no hospital Samaritano Barra, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. Segundo comunicado oficial da instituição, a morte ocorreu às 20h22, em decorrência de falência múltipla dos órgãos.
A notícia foi confirmada por meio de uma postagem nas redes sociais do músico. “Com serenidade e amor, comunicamos que Hermeto Pascoal fez sua passagem para o plano espiritual, cercado pela família e por companheiros de música. No exato momento da passagem, seu grupo estava no palco, como ele gostaria: fazendo som e música. Como ele sempre nos ensinou, não deixemos a tristeza tomar conta: escutemos o vento, o canto dos pássaros, o copo d’água, a cachoeira. A música universal segue viva”, dizia o texto.
Referência mundial

Descrito por Miles Davis como “o músico mais impressionante do mundo”, Hermeto construiu uma carreira marcada pela inovação e liberdade criativa. Três vezes vencedor do Grammy Latino, ele desafiou convenções ao incorporar sons do cotidiano em suas composições — de panelas a brinquedos, de chaleiras a sons de animais.
Autodidata, começou a tocar acordeom ainda criança, aos 10 anos, influenciado pelo irmão. Curiosamente, só passou a escrever partituras após os 40 anos de idade. Morador de Bangu, na Zona Oeste do Rio, Hermeto nunca parou de criar — sua música era expressão contínua de vida.
Últimos shows e despedida dos palcos
Em junho deste ano, Hermeto realizou sua última apresentação no Brasil, no Circo Voador, no Rio, numa celebração que coincidiu com seu aniversário de 89 anos. Antes disso, entre julho e agosto, o artista havia feito uma turnê europeia com nove shows em sete países.

Apesar de programado para se apresentar no Festival Acessa BH, em Belo Horizonte, neste mesmo sábado (13), sua participação foi cancelada dois dias antes por questões de saúde. Ainda assim, o grupo Nave Mãe, formado por seus músicos, manteve a apresentação em sua homenagem.
“Música universal”: a filosofia de um bruxo sonoro
Hermeto rejeitava rótulos e estilos fixos. “Nunca fiz um grupo de bossa nova ou de forró. Já toquei em muitos festivais de jazz, mas não toco só jazz. Toco frevo, baião, música clássica. Então chamo isso de música universal. É o único rótulo que aceito”, declarou em entrevista ao jornal O Globo, ao completar 80 anos.
Para ele, tudo era música. “Quando subo no palco, não tenho idade. O corpo pode ser de 88 anos, mas a alma vira menino. A música é a vida. Se estou respirando, já estou fazendo som. Até o silêncio tem ritmo. Para mim, música é brincadeira de criança: tudo junto, sem fronteira”, disse, em sua última entrevista.
Legado, discografia e reconhecimento

Em 2024, lançou seu último álbum de inéditas, “Pra você, Ilza”, em homenagem à sua esposa Ilza Souza Silva, com quem viveu por quase cinco décadas. O disco foi considerado um dos melhores do ano pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). No mesmo ano, ganhou sua primeira biografia oficial, “Quebra tudo! — A arte livre de Hermeto Pascoal”, escrita por Vitor Nuzzi.
Sua contribuição à música foi reconhecida internacionalmente: em 2023, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Juilliard School, em Nova York — um feito raro para músicos populares. No Brasil, foi agraciado com o mesmo título pelas universidades federais da Paraíba e de Alagoas.
Uma trajetória prolífica
Nascido em Lagoa da Canoa, Alagoas, em 1936, Hermeto começou a carreira na adolescência, tocando com o irmão em rádios do Recife. Aos 20, mudou-se para o Rio de Janeiro e, logo depois, para São Paulo, onde passou a tocar na boate Stardust e formou parcerias com nomes como Heraldo do Monte e Lanny Gordin.
Foi um dos fundadores do Quarteto Novo, grupo histórico que acompanhou artistas como Geraldo Vandré e Edu Lobo. Na década de 1970, foi levado para os Estados Unidos por Airto Moreira e Flora Purim, onde gravou discos e ficou próximo do trompetista Miles Davis.

No Festival Internacional da Canção de 1972, causou polêmica ao usar um coral de porcos na música “Serearei”, o que lhe rendeu censura pela ditadura.
Despedida de um mestre
Hermeto Pascoal deixa seis filhos, 13 netos e dez bisnetos. Mais do que números, deixa um legado impossível de ser medido: uma visão musical que transcende técnica, gênero ou tempo. Para ele, a música era a própria vida — e sua obra continua como um farol para artistas do Brasil e do mundo.
“A idade não existe. O que tem é o dia a dia. Eu não me canso. Quando se é feliz, a gente aprende a passar a felicidade para as pessoas.” Hermeto Pascoal.





