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Loló, a Heloísa de sempre volta à baila, lá no Congresso!

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Editorial

Por Carlo Bandeira / Imagens: Exibição/Senado

“Loló” é um apelido carinhoso para Heloísa Helena, entre amigos, amigas e simpatizantes mais achegados. A famosa política brasileira nascida em Pão de Açúcar, Sertão de Alagoas, conhecida por sua trajetória como enfermeira, professora, ex-Senadora, fundadora do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e da Rede, sendo uma personagem ícone de luta por princípios, especialmente após sua saída do PT em oposição à reforma da Previdência, retorna brevemente ao Congresso via Federação Rede-PSOL.

A ex-Senadora, Heloísa Helena (Rede-RJ), volta depois de quase duas décadas longe do Parlamento, e o retorno, como era de se esperar de uma figura cuja vida pública nunca cabe em molduras convencionais, reacende memórias de embates, rupturas, ousadias e coerências, coisas raras, até hoje, no cenário político brasileiro. Ela assume a cadeira do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), suspenso por seis meses pelo plenário da Câmara dos Deputados após processo disciplinar concluído na quarta-feira (10/12).

Mesmo afastado, Glauber manifestou confiança absoluta na substituta. “Tenho confiança na trajetória e na militância da Heloísa”, disse, apostando que sua suplente manterá firme a linha de atuação crítica e combativa que a tornou conhecida em todo o país. Logo saberemos se assim será. Todavia, o que sabemos é que Heloísa é sempre Helena, una, tão somente ela e suas convicções. E está aí a sua maior e mais tremulante bandeira.

Uma trajetória marcada pela coragem de romper

Heloísa Helena não apenas participou ativamente da história recente da esquerda brasileira. Ela ajudou a moldá-la. Enfermeira, professora, militante de base, da voz inquieta dos movimentos sociais, sua caminhada política começou em Alagoas, onde foi vice-prefeita de Maceió (1993–1995) e deputada estadual (1995–1999). Em 1998, conquistou mandato de senadora, tornando-se uma das figuras mais vibrantes, polêmicas e respeitadas do Congresso.

Mas foi em 2003 que seu nome se inscreveu definitivamente no imaginário político nacional. Após confrontos internos com o PT, especialmente durante a votação da reforma da Previdência do primeiro governo Lula, que ela apontou como uma guinada “neoliberal”, Heloísa rompe com o partido. O gesto, ousado e simbólico, não era uma renúncia, foi uma fundação.

Heloísa Helena esteve entre os articuladores que criaram o PSOL, abrindo caminho para um novo campo político de esquerda, crítico e independente. Em 2006, como candidata à Presidência pelo partido recém-nascido, alcançou o terceiro lugar, com mais de oito milhões de votos naquela eleição, representando 6,85% do eleitorado, desempenho que lhe deu projeção nacional e consolidou sua figura como símbolo de coragem, coerência e robustez política. Amada por muitos, criticada por tantos, contudo, ignorada por ninguém.

Embates, disputas e a voz que não silencia

A vida partidária de Heloísa sempre carregou o tempero dos conflitos internos. Mesmo após migrar para a Rede Sustentabilidade, patrocinou disputas públicas, incluindo uma batalha direta pela liderança do partido com Marina Silva, disputa da qual saiu vitoriosa, reafirmando sua força política e sua capacidade de mobilização.

A coerência com que sempre sustentou suas posições, ainda que custasse espaço, aliados ou votos, tornou-se sua marca. Heloísa Helena nunca teve medo de ferir interesses nem de romper fileiras quando julgava que os princípios pesavam mais do que a disciplina partidária.

Retorno em um cenário político transformado

Agora, Heloísa retorna ao Parlamento como suplente, ocupando a vaga de Glauber Braga em um Brasil profundamente diferente daquele que ela deixou em 2007, mas ainda cheio das velhas cicatrizes que sempre a moveu a enfrentar. O palco mudou; a personagem, não. Suas ideias, agora temperadas pelo tempo, permitirão a nós rever o mesmo olhar fitado na coragem, sobretudo, apreciar uma personalidade pública apontando os seus dedos para a coerência. Seu reencontro com a Câmara ocorre em um ambiente sócio-político fragmentado, tensionado e permeado por debates fúteis, contudo, discussões que figuram nas pautas de urgências do Congresso Nacional. E este é exatamente o tipo de terreno em que sua presença costuma provocar inquietudes e rearranjos.

Num país onde muitos e muitas mudam de discurso conforme o vento sopra, Heloísa Helena volta como uma dessas raras figuras políticas que, acertando ou errando, jamais deixou de ser reconhecida pelo traço mais difícil de sustentar na vida pública: a coerência. E isto, para seus admiradores e críticos, continua sendo seu principal capital.

O Congresso volta a ouvir uma voz que não teme confronto e que carrega, como poucas, a memória viva das dissidências que ajudaram a redesenhar a esquerda brasileira. Uma volta que é, ao mesmo tempo, capítulo novo e retorno às raízes, aqueles lugares onde a política, para ela, sempre significou verbo, coragem e consequência.

Que seja, no Congresso Nacional, o semestre dos sonhos de qualquer democracia que se preze!

Carlo Bandeira, Jornalista, editor do Portal de Notícias Isto é Alagoas