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Bolsonaro, Alvo ou Peão?

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Editorial

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Por Carlo Bandeira

     A recente decisão dos Estados Unidos de impor tarifas adicionais a produtos brasileiros reacende uma discussão geopolítica que vai muito além das trocas comerciais entre dois países. Oficialmente, a justificativa americana se apoia em argumentos como proteção da indústria nacional, práticas comerciais “injustas” ou questões ambientais. Mas ao analisarmos o contexto mais amplo, é impossível ignorar o pano de fundo geoestratégico: o verdadeiro alvo dessa política pode não ser o Brasil em si, mas o BRICS, bloco emergente que vem desafiando a hegemonia dos Estados Unidos da América.

     E onde entra Jair Bolsonaro nessa equação?

     Durante seu mandato, Bolsonaro adotou uma postura de forte alinhamento aos EUA, especialmente à gestão de Donald Trump. Chegou até mesmo a renunciar a certas prerrogativas nacionais; como a condição de nação em desenvolvimento na OMC, em nome de uma aproximação com Washington. No entanto, mesmo com essa subserviência política e diplomática da gestão bolsonarista, o Brasil não escapou das tarifas americanas.

     O paradoxo é gritante: mesmo o governo Bolsonaro mais pró-EUA da história brasileira foi alvo de sanções. Isso revela que a questão não é sobre governos ou ideologias, mas sim sobre projetos de poder.

     Os EUA têm observado com crescente preocupação o fortalecimento do BRICS, grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que tem avançado em propostas de desdolarização, criação de mecanismos financeiros próprios e ampliação de sua influência global. O Brasil, por sua dimensão territorial, econômica e peso político na América Latina, é peça-chave nessa engrenagem. Atacar o Brasil economicamente pode ser uma forma indireta de enfraquecer o bloco na sua totalidade. A imposição de tarifas é, portanto, também uma forma de testar até onde vai a resiliência do bloco e sua coesão.

     É ingenuidade pensar que a taxação americana é apenas uma medida técnica. Trata-se de uma ação com peso simbólico e estratégico. Ao mirar o Brasil, os EUA enviam um recado ao BRICS: qualquer tentativa de contestar a ordem estabelecida terá um custo.

     Nesse tabuleiro geopolítico, Bolsonaro foi mais peão do que rei. Ao contrário do que muitos esperavam, sua proximidade com Washington não blindou o Brasil — apenas o tornou mais previsível e manipulável. E agora, paga-se o preço, apesar dessa taxação, invariavelmente, estar sendo contestada no próprio Estados Unidos.

     Mas o Brasil atual está sob controle, e preparando sanções como resposta a mais esse devaneio Trampista.