Por Severino Angelino
Psicanalista — Especialista em Escuta com Adolescentes, Adultos e Idosos
O cenário é conhecido: você rola o feed, se depara com uma publicação política que contraria suas crenças e, num instante, sente um impulso visceral de reagir. O coração acelera, os dedos se apressam… Mas, no fundo, não se trata de dialogar — e sim de vencer, calar, anular o outro.
A psicanálise nos oferece uma explicação desconcertante: nesses momentos, não estamos apenas defendendo ideias, mas algo muito mais profundo — nossa identidade. Como dizia Lacan, o “eu” se constrói a partir do olhar do outro. E nas redes, esse olhar se multiplica, transformando-se num verdadeiro campo de batalha simbólico. Cada curtida ou ataque se torna um sinal de validação ou rejeição da nossa existência.
Quando reagimos com raiva diante de quem pensa diferente, o que estamos, na verdade, dizendo é: “Eu existo! Me vejam! Me reconheçam!” E quanto mais agressiva nossa reação, maior a fragilidade que escondemos por dentro.

Freud já nos alertava: projetamos nos outros aquilo que não conseguimos aceitar em nós mesmos. Muitas vezes, o “fanático” ou o “cego ideológico” que criticamos é a representação inconsciente de algo que rejeitamos em nossa própria psique.
E o mais difícil de admitir? Existe um certo prazer nisso. Lacan chamou de gozo — um tipo de satisfação paradoxal, onde voltamos ao que nos fere. A adrenalina do embate, o aplauso dos aliados, o alívio momentâneo de humilhar quem discorda… tudo isso alimenta um ciclo de violência simbólica do qual poucos conseguem se afastar.
A verdade é incômoda: muitas vezes, não estamos lutando por ideologias, mas contra nossos próprios vazios, medos e frustrações. A política vira palco de dramas íntimos — medo da irrelevância, desejo de pertencimento, raivas que nem sempre sabemos nomear.
Então, vale refletir:
Quando foi a última vez que alguém mudou de opinião por causa de um comentário agressivo na internet?
E se toda essa energia fosse usada para construir, acolher, transformar — a si mesmo e o coletivo?
A psicanálise não propõe que abandonemos nossas convicções políticas, mas nos convida a uma pergunta crucial:
Quem está no comando quando entramos nessas batalhas — nossa consciência política ou nossas feridas não resolvidas?





