Por Carlo Bandeira e Adriana Kelly
Fotos: arquivo próprio
Com os pés fincados no solo alagoano e o coração guiado por uma intuição divina, a Profa. Dra. Cristina Lúcia Feijó Ortolani mergulhou na realidade do Nordeste brasileiro para conduzir uma das pesquisas mais sensíveis e promissoras sobre os efeitos do Zika Vírus em crianças com microcefalia, quando a cirurgiã-dentista paulista Dra. Carla Alves de Siqueira Alciati se identificou com o trabalho da professora e sob sua orientação, entrou para o Programa de Pós-graduação da Universidade Paulista (UNIP), com a ideia de buscar identificar biomarcadores salivares que possam indicar fatores de risco ou proteção à saúde bucal dessas crianças.
A investigação não nasceu apenas de um interesse científico, mas também de um profundo compromisso ético e humano com famílias historicamente esquecidas pelo Estado. “Será que existe algo na saliva dessas crianças que possa protegê-las ou, ao contrário, agravar ocorrências na dentição?”. Foi a pergunta que moveu a Dra. Carla na direção dessa resposta, e deu início à pesquisa que se transformou em projeto assistido por uma Universidade. A resposta, ainda em construção, poderá oferecer caminhos para uma melhor qualidade de vida às crianças acometidas pela Síndrome Congênita do Zika Vírus.
Desde o início deste movimento, há cerca de sete anos, a Dra. Cristina Ortolani tem consolidado um valioso banco de dados para a pesquisa, sobre a saúde bucal em crianças afetadas pelo Zika, com diversas frentes de estudos: do uso de óleos essenciais para controle do bruxismo ao emprego de toxina botulínica para tratamento da sialorreia (produção excessiva de saliva). Agora, a saliva dessas crianças pode revelar muito mais.
Com o apoio da Associação Família de Anjos do Estado de Alagoas (AFAEAL),
presidida por Alessandra Hora, e a disponibilidade da Pestalozzi de Arapiraca, presidida por Zélia Azevedo, em ceder suas dependências para o atendimento dessas crianças, a pesquisa pôde alcançar tanto a capital quanto o interior do estado. Em Maceió, a sede da AFAEAL, hoje conta com um consultório odontológico estruturado para atender às especificidades desses pacientes. Segundo a Dra Carla, foi ali que ciência e afeto se encontraram de forma visceral, promovendo ações educativas, com distribuição de kits de higiene bucal, oficinas de escovação e encontros acolhedores de conscientização com mães, pais e cuidadores.
A coleta de saliva e os exames clínicos ocorrem com metodologia científica rigorosa, sempre respeitando o conforto e as particularidades de cada criança. Além da avaliação clínica bucal, são realizados procedimentos minimamente invasivos, como o Tratamento Restaurador Atraumático (ART), que permite restaurar dentes afetados pela cárie de maneira minimamente invasiva adaptando-se à realidade e às necessidades das crianças com deficiência.
Como mãe atípica, Adriana Kelly, participante ativa deste movimento, reforça a complexidade da rotina de cuidados: “Cuidar da saúde bucal de uma criança com deficiência não é fácil. desde o simples movimento de abrir a boca até ela permitir que alguém a toque. Elas não deixam nem abrir a boca, não é simples como pode parecer. Esse trabalho precisa de mais do que técnica, precisa de afeto para conquistar não só a criança, como também, a sua família”.
Atualmente, a equipe também investiga, em parceria com a Profa. Dra. Fernanda Maranhão (UFAL), a presença do fungo Candida albicans na cavidade bucal dessas crianças — um passo a mais rumo à compreensão integral da saúde bucal nesse grupo populacional.
Mais do que uma pesquisa clínica, esse trabalho já constitui um legado humano. Na saliva dessas crianças, talvez esteja a chave para uma nova abordagem em saúde bucal. Mas é no encontro entre ciência, compromisso e solidariedade, é que floresce, de fato, a possibilidade de cura.






