Por Severino Angelino – Psicanalista
É comum que, em algum momento da adolescência, os jovens se fechem em seu próprio mundo. O quarto vira refúgio, os fones de ouvido se tornam companheiros constantes, e as conversas com a família passam a ser rápidas, curtas, quase automáticas. Para muitos adultos, esse comportamento parece rebeldia, desinteresse ou preguiça. Mas, por trás desse silêncio, existe um universo interno em ebulição — um mundo de dúvidas, medos e sentimentos que nem sempre conseguem ser colocados em palavras.
O isolamento, para o adolescente, muitas vezes não é um afastamento das pessoas, mas uma tentativa de se reconectar consigo mesmo. Em uma fase da vida marcada por mudanças intensas no corpo, nas emoções, nas relações sociais e na própria identidade, o silêncio pode ser uma forma de processar tudo isso. Eles estão descobrindo quem são, enfrentando cobranças, lidando com expectativas e, em muitos casos, tentando sobreviver a pressões que os adultos nem sempre percebem.
Ao se isolar, o adolescente não está necessariamente rejeitando o mundo ele pode estar, na verdade, tentando encontrar um lugar seguro dentro dele. Pode estar lidando com ansiedade, medo de fracassar, bullying, baixa autoestima ou simplesmente tentando entender emoções que nunca havia sentido antes. E como nem sempre sabem como expressar o que sentem, preferem o silêncio.
É nesse momento que a presença dos adultos faz toda a diferença. Não para forçar respostas ou invadir espaços, mas para oferecer acolhimento, escuta e compreensão. Às vezes, a melhor forma de ajudar um adolescente é simplesmente estar ali disposto a ouvir quando ele quiser falar, a respeitar seu tempo e a mostrar, com atitudes, que ele não está sozinho.
Julgar o isolamento como desinteresse é um erro comum. O que eles mais precisam não é de broncas ou cobranças, mas de empatia. Precisam saber que suas emoções importam, que seus dilemas são válidos e que existe espaço para serem ouvidos sem medo de críticas. Precisam de adultos que enxerguem além da superfície, que reconheçam os sinais e ofereçam apoio genuíno.
Por isso, como comunidade, temos um papel essencial. Precisamos construir uma cidade que acolha seus jovens não apenas com políticas públicas e programas sociais, mas com humanidade, diálogo e sensibilidade. Que nossas escolas, centros de saúde, espaços culturais e familiares estejam preparados para ouvir, orientar e cuidar. Que os adolescentes saibam que aqui, neste lugar onde vivem e crescem, há pessoas dispostas a escutar, a apoiar e a caminhar com eles, mesmo nos momentos mais difíceis.
O isolamento pode ser um grito silencioso. E o nosso dever é responder com presença, empatia e amor. Que sejamos, todos nós, pontes e não muros entre gerações.





