Por Severino Angelino – Psicanalista
Os vícios e as compulsões raramente nascem do mero desejo de prazer. Mais do que buscar satisfação, o sujeito recorre a eles como forma de silenciar a angústia que insiste em se fazer presente. Cada gesto repetido, cada impulso aparentemente irracional, é uma tentativa de conter algo que escapa à palavra, uma busca desesperada por alívio diante de um vazio que parece insuportável. O prazer, nesse contexto, não é um fim, mas um remédio temporário, uma anestesia momentânea que promete esquecer a dor, ainda que por instantes.
O paradoxo é cruel: quanto mais se busca aplacar o sofrimento, mais se reforça a prisão da compulsão. O alívio, fugaz e enganoso, cede lugar à repetição inevitável, e o sujeito se vê capturado por padrões que não consegue transformar em sentido. Freud nos lembra que a compulsão à repetição não é um capricho, mas um sintoma do inconsciente, uma tentativa de dominar experiências que não puderam ser simbolizadas. Cada ato compulsivo fala, mesmo quando parece apenas agir; cada vício é uma linguagem silenciosa que denuncia uma angústia profunda, muitas vezes ligada a traumas, faltas ou rejeições da infância.
No tratamento psicanalítico, o desafio não é simplesmente interromper o comportamento, mas escutar o que ele expressa. É necessário perguntar: qual dor se oculta por trás da compulsão? Que ausência se tenta preencher através da repetição? Somente ao dar nome à angústia e permitir sua elaboração simbólica o sujeito consegue libertar-se da necessidade de buscar prazer como fuga. É nesse movimento que a repetição perde seu caráter defensivo e se transforma em consciência, em escolha, em relação mais livre consigo mesmo.
Um paciente que há anos vivia a compulsão alimentar descrevia cada episódio como um mergulho no vazio, um esforço quase automático para conter um desespero silencioso. Ao longo da análise, tornou-se evidente que não era a comida que o movia, mas memórias de abandono e rejeição que nunca haviam sido nomeadas. Compreender e verbalizar essas experiências permitiu que o gesto compulsivo perdesse sua função de fuga; o prazer voltou a ocupar seu lugar legítimo, como expressão do desejo, e não como refúgio do sofrimento.
Assim, os vícios e compulsões não devem ser encarados como simples falhas de caráter ou fraqueza de vontade. São sintomas que revelam aquilo que o sujeito não conseguiu ainda integrar à sua vida psíquica. Reconhecê-los, acolher a angústia que os sustenta e transformar a repetição em simbolização é o caminho para que o prazer deixe de ser prisão e passe a ser vida. No encontro com a própria dor, surge a possibilidade de liberdade, e, com ela, a chance de experimentar o prazer sem culpa, sem fuga, mas com sentido.






