Em Arapiraca, o silêncio mais cruel não vem da falta das desculpas vazias, mas do sopro de ar que sai da torneira que gira o registro. É um chiado seco, uma promessa fantasma que há anos castiga os bairros arapiraquenses. Nas cozinhas e quintais, o drama se mede em baldes guardados, na contagem neurótica das gotas e na espera por um milagre que sempre vem em formato de caminhão-pipa.
Na noite desta terça-feira, no entanto, esse silêncio, MAIS UMA VEZ, ganhou voz. Não a voz conformada de quem aprendeu a racionar a própria dignidade, mas o tom inflamado do vereador Vavazinho, que transformou a tribuna da Câmara Municipal no desabafo coletivo de milhares de arapiraquenses.
Quem assistia ao plenário viu o parlamentar subir os degraus com o peso do sofrimento de um povo que já não aguenta mais pagar por uma ilusão líquida. O alvo, claro e justificado, foi a Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal). A cobrança não foi apenas por canos cheios, mas pelo fim de uma injustiça que se repete a cada ciclo de faturamento: a conta chega, pontual, pesada e inacreditável, para cobrar por um serviço que simplesmente sumiu.
“Isso é uma questão de respeito, de direito do consumidor e, acima de tudo, de humanidade!”, falou o vereador, verbalizando o absurdo que se instalou na rotina da cidade. Afinal, como explicar para uma mãe de família, que junta os trocados do mês para manter o nome limpo, que ela deve pagar pelo vento que passa pelas tubulações? Se a água não chega ao destino, a cobrança se torna uma ficção jurídica, um insulto ao bolso e à inteligência do cidadão”, finalizou.
O anúncio de Vavazinho de acionar o Ministério Público Estadual (MP-AL) para suspender imediatamente as faturas até a normalização do sistema foi recebido no plenário e aprovado com a gravidade que o momento exige. Não se trata de um favor ou de uma manobra política; trata-se de restabelecer o equilíbrio mais básico das relações humanas e de consumo. Se não há entrega, não há pagamento.
A crise hídrica em Arapiraca atingiu um novo patamar de tensão porque a paciência, assim como os reservatórios, secou. Ao prometer oficiar o Ministério Público e os órgãos de fiscalização, o parlamentar ecoou o sentimento que paira nas ruas: o povo de Arapiraca tem sede de água, mas também tem sede de respeito e dignidade. Resta saber se os burocratas e os canos da Casal finalmente ouvirão o recado antes que o desespero se torne ainda mais profundo.
Por Assessoria






